Barricada de Livros

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Ensaio Sobre a Cegueira
janeiro 13, 20200 Comments
E se nós fôssemos todos cegos?
É a partir dessa ideia que Saramago escreve sua história.

Num dia comum, um cidadão espera o semáforo abrir para que possa continuar seu trajeto e eis então que ele cega, de um momento para o outro, sem nenhuma explicação. Carros começaram a buzinar e há uma grande comoção com as pessoas curiosas que vão acudir o novo cego. Mas há ainda outro fator estranho, se é que é possível ser mais estranho. A cegueira daquele homem não é aquela cegueira comum que conhecemos, ela é branca, como se aquele homem estivesse mergulhado em um mar de leite.

A partir disso uma série de eventos vão sendo narrados e vemos outras pessoas cegando, uma delas o oftalmologista que atendeu aquele primeiro cego e que ficou sem entender de onde essa cegueira tinha vindo já que não havia nenhum dano orgânico que explicasse tal coisa. Com isso temos a impressão de que essa cegueira, por algum motivo, é contagiosa. Assustados, o governo então decide colocar esses cegos, assim como aqueles que tiveram contato com eles, em um sanatório abandonado em uma espécie de quarentena até que eles tenham conhecimento da tal cegueira.

Mas o que parecia uma boa ideia no início, vai se tornando um verdadeiro inferno. Porque afinal, algo de bom poderia sair ao colocar em um local fechado e desconhecido várias pessoas que não conhecem umas as outras e que estão no desespero de estarem cegas e não saberem viver com aquilo? Sem contar que o desespero não são apenas deles, mas de todo mundo do lado de fora também como podemos ver com os soldados que ficam guardando o local. O medo de cegarem também os fazem agir de forma desumana.

"...mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos demanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos."

O que Saramago aborda em seu livro é como nós seres humanos que aparentemente somos tão inteligentes, não usamos essa capacidade de pensar para o bem. É preciso só uma pequena brecha para que nós nos mostremos como realmente somos. Animais. Animais sádicos que não ligam realmente com o próximo. Como ele abordou em uma entrevista, a nossa própria história nos mostra como só fazemos o mal. Guerras e guerras e conflitos em toda parte do mundo, ainda hoje encontramos isso. Parece que não temos um momento de paz nesse tempo em que estamos vivendo em sociedade.

"O medo cega, disse a rapariga de óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos."

Mas não é só isso que notamos em "Ensaio Sobre a Cegueira", a história é uma analogia sobre como nós não enxergamos aquilo que está bem na nossa cara. Quem sabe essa cegueira não foi uma tipo de teste necessário para que naquela realidade as pessoas conseguissem finalmente abrir os olhos? Mas é interessante pensar nisso quando há uma única pessoa no meio daquele caos que não cegou, o que inclusive refuta a teoria da cegueira ser contagiosa.

Essa mulher é a esposa do oftalmologista que decide se fingir de cega no momento em que seu marido é levado para a quarentena, para que assim pudesse lhe fazer companhia. Ninguém além do marido sabe que ela enxerga mas sua vida não é mais fácil por ter visão, justamente por ainda ver ela é obrigada a presenciar os horrores que acontecem ali, desde violência até a regressão do homem a selvageria. 

"Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem."

Penso que a mulher do médico é a representação de que não se torna mais fácil ter esses olhos abertos, enxergar o que está em nossa frente. É difícil, é extremamente difícil manter a fé de que há outras alternativas quando você tem plena consciência de como as coisas funcionam, fora da ilusão que somos mergulhados desde pequenos. Ver a verdade dói, é por isso que somos cegos e por isso que permanecemos cegos.

"Ensaio Sobre a Cegueira" não é um livro fácil, demorei para ler e demorei mais ainda para finalizar esse texto. Ele é angustiante, doloroso e nos mostra que no fim somos apenas animais assustados.

Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 312
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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Menina Má
agosto 13, 20180 Comments
Menina Má foi lançado originalmente em 1954 e se tornou um sucesso rapidamente, foi tanto sucesso que se transformou em uma peça nos palcos da Broadway e ainda uma adaptação cinematográfica que recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo o de melhor atriz para Patty McComarck, que interpretou a garotinha da história.

A narrativa gira em torno de um mistério. 
Rhoda é uma linda garotinha de 8 anos de idade e que é amada pelas pessoas mais velhas que a conhecem. A família é nova ali naquela cidade e a garota mora com a mãe e o pai que vive ausente por conta do trabalho. O mistério começa quando em um passeio escolar, um colega de Rhoda morre afogado em um lago e ninguém sabe o que aconteceu. O que deixa a mãe de Rhoda atormentada é o fato de esse mesmo garotinho ter ganhado uma medalha de caligrafia que sua filha tanto queria, sem contar que essa mesma medalha não foi encontrada junto do corpo. A criança age de forma extremamente fria a esse acontecimento, o que assusta sua mãe.

A sra. Penmark começa a desconfiar da própria filha e começa a fazer investigações sobre assassinos e desenterra seu passado em busca de respostas. A grande questão que o livro nos traz é: "Será a maldade uma espécie de semente que carregamos dentro de nós, capaz de brotar na mais adorável das crianças?"

Vou começar dizendo que apesar de esse assunto e essa questão em especial ser de interesse da grande maioria, minha leitura não teve tanto impacto quanto teria se eu me identificasse nesse grupo. Apesar de amar histórias de assassinos e de discutir sobre a maldade em si, a abordagem de March é extremamente freudiana e eu meio que odeio Freud. Acredite, é difícil dizer isso! Sempre achei que seguiria a psicanálise (pra quem não sabe, eu faço psicologia) mas tudo mudou quando eu tive contato com o Behaviorismo, o pior é que só fui notar como amava Behaviorismo agora que tô estudando Freud ou seja, se eu lesse esse livro a um ano atrás eu provavelmente teria uma opinião TOTALMENTE diferente. E isso é incrível!


Bom, por conta disso o livro acabou sendo bem chatinho para mim. Isso porque eu não acredito mais que maldade tenha origem orgânica da forma que March nos apresenta e o desenvolvimento da história, conforme a sra. Penmark vai sabendo cada vez mais do seu passado, me pareceu extremamente boba. Mas talvez não seja totalmente culpa da explicação em si, para ser bem sincera eu também não morri de amores pela narrativa em si.

March conta a história de forma lenta e repetitiva e há passagens que me parecem desconexas com o enredo em si, e mesmo que haja sim sentido para certos acontecimentos eles me deixaram entediada. Não senti medo de Rhoda, ela me pareceu mais uma criança mal criada do que uma assassina. Como se os assassinatos fossem simples birras. E sem querer ser chata, vi coisas no ambiente dela que poderia ser uma explicação mais lógica do que a semente maligna.

Para um livro que diz que é polêmico, violento e assustador, eu não fiquei tão chocada assim. Considerando o ano em que foi publicado, ele pode mesmo ter sido considerado como tal, mas agora em 2018 isso não rola comigo. Mas pode ser só comigo, eu tentei o meu melhor encarar o livro com a mente aberta mas é óbvio que o fato de eu discordar com a proposta teve um efeito negativo na narrativa. E é por isso que eu venho bater na tecla novamente: tirem suas próprias conclusões. Nós discordamos de nós mesmos! Pode ser que daqui a 5 anos eu leia novamente e pense que eu só falei besteira nesse post. E tudo bem! É um dos motivos de eu amar o ser humano.

Em suma, minha relação com o livro de March é de amor e ódio. Não consigo escolher se eu gostei apesar de não concordar ou se odiei pela narrativa não ter sido forte como eu esperava. Mas como tudo na vida tem pontos positivos e negativos, o livro não foi diferente. Acredito que vale a pena a experiência independente se você concorda ou não com a existência de uma "semente do mal".

Autor: William March
Tradução: Simone Campos
Editora: DarkSide Books
Ano: 2016
Páginas: 272
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segunda-feira, 7 de maio de 2018

A Febre
maio 07, 20180 Comments
Segundo Gillian Flynn, é um romance "sombrio, perturbador e estranhamente fascinante." Foi por causa dessas palavras que eu resolvi comprar meu exemplar, isso sem nem ao menos ter lido Gillian Flynn. Confiei cegamente, levando em consideração a palavra de uma escritora que eu não conhecia de fato e só conhecia sua fama...não me arrependi.

O livro conta a história de uma pequena cidade chamada Dryden, em uma manhã comum Lise cai no chão repentinamente em sua classe de aula e tem convulsões sem motivo aparente. Sua amiga Deenie que estava próxima a ela, junto com seu colegas, ficam em desespero sem saber como lidar com aquilo. Logo no dia seguinte outra amiga de Deenie, Gabby, tem um ataque misterioso em uma apresentação na escola. Esses eventos traumáticos e sem explicação afeta toda a cidade depois que várias outras garotas começam a ter diversos sintomas sem motivo orgânico. Juntando o fato de não saberem a origem disso e o desespero que se arrasta por toda a cidade, as suspeitas se dividem entre um possível vírus, a vacina de HPV que as meninas tomaram recentemente e o misterioso lago da cidade que carrega uma história sombria. 

O livro de Megan Abbott é um exemplo muito bem construído de histeria coletiva, foi baseado num evento real que aconteceu em Nova York em 2012 e tem uma atmosfera quase fantasmagórica. Apesar de ter sim uma suspeita mais sobrenatural a narrativa é real em todas as páginas. Não é uma ficção fantasiosa, é a vida real acontecendo e sendo assustadora sem precisar de seres do além que nós não conseguimos entender. Na verdade, me arrisco a dizer que o fato de nós eventualmente nos deixarmos levar a uma explicação sobrenatural quando não temos respostas concretas sobre os mistérios da vida, me faz pensar o quanto nós não sabemos lidar com a realidade ao nosso redor.


A narrativa em 3ª pessoa separada em três diferentes pontos de vista é o ponto principal para que nós leitores fiquemos instigados a saber cada vez mais sobre o que está acontecendo. O narrador não se prolonga em cada visão, cortando justamente nos momentos em que uma informação importante está prestes a ser revelada e retornando naquele acontecimento páginas depois. Isso prende o leitor que fica a mercê de poucas informações. É como se o narrador falasse "calma, pequeno gafanhoto" constantemente para você. E para mim, isso foi excelente.

Apesar de ter um ritmo bem mais lento por isso, essa forma de narrar nos obriga a pensar em cada detalhe e não simplesmente "engolir" informações sem nem ao menos fazer pequenas ligações no que tá acontecendo. É fascinante a construção de cada pessoa que aparece, como vamos descobrindo um pouco mais de quem ela sem nenhuma pressa, o que ajuda a acalmar o sentimento de desespero que a gente acaba sentindo junto dos moradores daquela cidade. Talvez não agrade a todos, mas com certeza é uma forma inteligente de ganhar o leitor.

"A Febre" é muito mais do que um livro adolescente. É um suspense de qualidade que me deixou surpresa a cada novo capítulo, coisa que eu não achei que aconteceria pois comecei a leitura com um pouco de preconceito. Como é bom descobrir que você estava errada e achar mais uma autora para admirar. E se Gillian Flynn for tão boa quanto Megan Abbott consegue ser em sua narrativa, eu vou ficar extremamente feliz!

Autora: Megan Abbott
Tradução: Cássia Zanon
Editora: Intrínseca
Ano: 2015
Páginas: 272
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terça-feira, 27 de março de 2018

Me Chame Pelo Seu Nome
março 27, 20180 Comments

Eu não costumo ser o tipo de pessoa que segue os hypes, independentemente do que sejam: filmes, séries, livros etc. Eu sou uma pessoa do meu próprio mundo e nunca me forço a fazer nada só porque várias pessoas me falam para fazer, assim como eu não deixo opiniões alheias definirem se eu vou ou não fazer alguma coisa. É por isso que eu bato tanto na tecla de que é preciso ter sua própria experiência para falar de algo, independente do que seja.

Não sei explicar muito bem o motivo que me fez querer ler Me Chame Pelo Seu Nome no meio do hype que ele está tendo graças a sua adaptação para o cinema que conseguiu 4 indicações ao Oscar (e ganhou a estatueta de melhor roteiro adaptado!), eu nem ao menos tinha me interessado pela história mas isso porque a primeira vez que fiquei sabendo dele me passaram informações precipitadas e eu achei perturbador e não quis ter contato. Mas ao saber realmente sobre o que era eu logo fiquei curiosa. Então vou aproveitar pra bater mais uma vez na tecla: pesquisem antes de sair julgando! Eu fiz isso e fiquei triste de não ter me interessado antes.

O livro se passa em algum lugar na Itália e nosso narrador é um Élio mais velho nos contando sobre um verão lá nos anos 80 que foi marcante em sua vida. Notamos desde o início como ele tem um afeto muito grande por aqueles meses e toda sua narrativa é contada nos passando essa sensação de nostalgia. Seu verão foi marcado por uma paixão arrebatadora que ele sente por Oliver, um jovem escritor norte-americano que está ali para acompanhar o processo de tradução do seu livro sobre Heráclito e vai se hospedar em sua casa. O pai de Élio é um acadêmico e todo verão cede sua casa para hospedar algum outro estudioso que tenha interesse em passar as férias naquele pequeno paraíso, isso tudo de graça e a única exigência é que o hóspede dedique uma hora para ajudá-lo com as correspondências e papelada em geral.

Élio começa seu verão já de saco cheio e nada animado em ter que ceder seu quarto para mais um chato que vai ficar ali por seis longas semanas. Mas logo percebemos que o que acontece é aquela clássica jogada da nossa cabeça em que nós fingimos odiar aquela pessoa que nos atrai. Élio fica obcecado por Oliver logo de cara, isso é óbvio para nós, mas ele passa as primeira páginas tentando entender onde foi que essa paixão teve início.

"Mas talvez tenha começado bem mais tarde do que acredito, sem que eu percebesse. Você vê a pessoa mas não a enxerga de verdade, ela simplesmente está por ali. Ou até enxerga, mas nada bate, nada 'chama a atenção' e, antes mesmo que você perceba uma presença ou algo incômodo, as seis semanas que lhe foram oferecidas já passaram e a pessoa já foi embora ou está prestes a ir, e você fica lutando para aceitar algo que, sem que você soubesse, vinha ganhando forma bem debaixo do seu nariz, trazendo consigo todos os sintomas daquilo que só pode ser chamado de desejo. Como eu não percebi? Você se pergunta. Sei reconhecer o desejo — desta vez, no entanto, tinha passado completamente despercebido. Eu me saía com meu sorriso misterioso, que fazia o rosto dele se iluminar toda vez que lia meus pensamentos, mas tudo que eu queria era pele, apenas pele." (pág. 15)

Élio vê Oliver e sua atração por ele é gigantesca e sua vontade de o ter para si é tão grande que beira a obsessão. O que pode até parecer assustador falando assim, mas se nós refletirmos um pouco é exatamente o que acontece quando nós nos apaixonamos por alguém. Você quer saber cada pequeno detalhe físico e psicológico do outro, quer saber cada passo e até queremos nos tornar aquela pessoa de tão incrível que ela nos parece. É isso que o livro nos passa em cada página, parágrafo e palavra. É como se estivéssemos escutando um amigo nos falar sobre aquela pessoa que ele está afim e mesmo que nós mesmos não conseguimos enxergar o que ela tem de tão especial, nosso amigo se empolga e os olhos brilham só de pensar naquela pessoa em que ele tanto gosta.


Inclusive, acho legal falar que eu estou nessa posição nesse momento. Toda vez que vou falar sobre esse livro com alguém eu fico extremamente feliz e arrepio quando leio alguma passagem que eu marquei. E embora muitos amigos não entendam o porquê de eu ter gostado tanto, pra mim esse é um dos melhores livros que eu já li em toda a minha vida e eu não consigo imaginar minha vida sem essa história e nem ao menos queria que ela acabasse. Se esse sentimento já é forte com uma história, imagina o quão forte é esse sentimento para o Élio?

"Mas eu não enganava a mim mesmo. Estava convencido de que ninguém no mundo o desejava de modo tão primitivo quanto eu; de que ninguém estava disposto a ir até onde eu iria por ele. Ninguém tinha estudado cada osso do seu corpo, tornozelos, joelhos, pulsos, dedos das mãos e dos pés, ninguém desejava cada contração muscular, ninguém o levava para cama todas as noites e, ao vê-lo de manhã deitado em seu paraíso à beira da piscina, sorria para ele, via o sorriso vir a seus lábios e pensava. Sabia que eu gozei na sua boca ontem a noite?" (pág. 50)

Todo o objetivo da história de Me Chame Pelo Seu Nome, reforçada pelo presente trabalho de Oliver, é a mensagem que Heráclito passava de que tudo flui e nada permanece o mesmo. É uma história de primeira paixão, aquele sentimento arrebatador e que, infelizmente, tem seu fim. Afinal, tudo acaba. E como Heráclito também diz, nós nunca vamos entrar no mesmo rio duas vezes. E com isso eu quero compartilhar uma reflexão e uma visão pessoal que condiz com o discurso tocante do pai de Élio no fim do livro: Pra mim, não existe apenas uma primeira paixão. Somos cheios de primeiras vezes e eu acredito que seja um desperdício encaixar apenas uma situação como a primeira. Um exemplo que eu gosto muito de falar para as pessoas é sobre meus primeiros beijos. Eu adoro pensar em todos os primeiros beijos com pessoas diferentes como o meu primeiro beijo "oficial", eles são especiais de formas diferentes e eu guardo cada um deles com o mesmo carinho.

Como Heráclito disse, eu não estou banhando no mesmo rio. Cada beijo, com cada pessoa diferente é um novo rio. Com a visão de desapego que temos na nossa sociedade hoje em dia, ser uma pessoa que sofre a cada pequeno rompimento é taxada como "trouxa" e eu sou uma delas com todo orgulho. Cada pequeno rompimento me machuca pois mesmo que breve, toda relação que eu tenho é importante. E como o pai de Élio aconselha a ele, é um desperdício arrancarmos tanto de nós e ter cada vez menos para oferecer a cada vez que iniciamos algo com alguém novo.

O livro me encantou logo no começo pela escrita de André Aciman que é tão poética, crua, sensual e verdadeira que literalmente me fez arrepiar. Mas ele me ganhou completamente por sintetizar tudo aquilo que eu acredito e que eu nunca fui capaz de explicar totalmente. A narrativa se localiza  inteiramente na cabeça conturbada e confusa de Élio, assim como a nossa quando estamos gostando de alguém e isso é incrível pois depois de anos lendo pensamentos muito bem organizados eu já estava ficando angustiada pois aqui dentro, na minha mente, é uma baita confusão. E é tão bom se identificar 100% com o personagem que você está acompanhando!

É legal comentar que ambos os personagens são bissexuais, o que foi apontado pela Tatiany Leite do canal Vá ler um Livro e que eu mesma não tinha percebido, o que me trouxe toda uma reflexão sobre a invisibilidade de bissexuais. Eles são sempre esquecidos e são difíceis de serem levados a sério, as vezes até mesmo da própria comunidade, e isso se mostrou tão forte ao ser apontado para mim pois eu, que sou, não notei isso. É um tanto quanto preocupante, mas quando notei que isso estava sendo representado nesse livro tão magnífico eu me apaixonei ainda mais.

Para concluir peço que se você se interessou pelo livro, leia. Veja o filme também! Não importa a ordem, só vá conhecer essa história linda de amor entre duas pessoas. É um desperdício essa história  sobre o amor continuar escondida aqui no Brasil como ficou por tantos anos. Uma história de amor pura e sem complicações desnecessárias como nós somos levados a acreditar que precisa ter para ser verdadeiro. E mesmo que tenha eventuais complicações, nunca impeça que elas sejam obstáculos para sua própria história de amor. Como o próprio Élio nos diz em uma passagem: "...após todas aquelas semanas e todas as discussões e todos os conflitos que sempre me causavam arrepio, tudo que havíamos nos tornado eram duas línguas movendo-se na boca um do outro. Apenas duas línguas, o restante era conversa."

Autor: André Aciman
Tradução: Alessandra Esteche
Editora: Intrínseca
Ano: 2018
Páginas: 288
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@linelanis