Barricada de Livros

terça-feira, 3 de março de 2020

Flores
março 03, 20200 Comments

Li esse livro pela primeira vez em 2016 e desde daquela vez, é um livro que me intriga. Não sei bem o que entendi na primeira leitura e ainda não tenho certeza do que entendi nessa releitura. Desde a estrutura do livro físico — apenas o miolo e sem capa — até a estrutura da narrativa que logo na abertura do livro o autor deixa claro que a intenção é de cada capítulo possa ser lido separadamente mas que juntos compõem um todo, nós já sabemos que é uma história podada.

Tenho até certa dificuldade de falar sobre esse livro pois ele te fisga de um jeito impactante e te deixa sem entender muita coisa, mas ao mesmo tempo te faz questionar. A cada fim de relato eu tinha que fechar o livro e pensar. E pensei muito. Esse livro me pediu vários momentos de reflexão olhando para o além. Além das pessoas, além das ruas que passava e além de tudo que eu tava passando no momento.

Flores é uma coletânea de pequenos textos aparentemente independentes mas que no fundo são apenas fragmentos de uma história maior. O que sabemos é que um medicamento trouxe consequências em recém-nascidos de mulheres que fizeram uso da substância, fazendo-os nascerem com más-formações e os relatos envolve as pessoas que de alguma forma estão ligadas por conta desse acontecimento. O fato da estrutura ser feita dessa forma me fez pensar um pouco sobre a vida em si. Afinal, não somos todos pequenos fragmentos de uma história maior da humanidade? Se eu tivesse que definir esse livro em uma frase, ela seria: menos é mais. Essa é uma frase que eu escutava muito nos tempos de teatro pelo meu professor e eu acho absurdo como ela se aplica a várias coisas da vida. Ao não dar detalhes demais sobre alguma coisa ela se torna mais real e mais aberta a possibilidades. 

Conhecemos bem pouco dos personagens apresentados, mas o que conhecemos já é forte o suficiente. É um livro que incomoda bastante. E, apesar de toda a bizarrice conseguimos perceber a solidão das narrativas e talvez seja por isso que eu não consegui em momento algum julgar aquelas pessoas fictícias porém super reais para mim. E isso me torturou de certa forma. Estamos a todo momento julgando. Todo mundo julga. Claro, temos o exercício diário de tentar não fazer isso (pelo menos eu tenho), mas é uma coisa comum. E ao ler um livro, eu julgo bastante os personagens. Pois normalmente tenho disponível para mim tudo sobre as personagens o que dá uma certa "razão" de julgar cada decisão tomada. Mas nesse caso eu não tenho disponível praticamente nada. O que me levou a mais uma reflexão interessante.

Qual nosso fundamento real para julgar uma pessoa? Nós sempre esquecemos que nós apenas sabemos o que a pessoa nos apresenta e tenha certeza de uma coisa: não chega nem a metade do que a pessoa é. Ora, não temos capacidade nem de conhecermos a nós mesmos como podemos achar que podemos conhecer completamente o outro a ponto de julgá-lo?

A narrativa de Flores é crua e direta, ela apenas apresenta os fatos sem nenhum rodeio, o autor não tem a intenção de explicar qualquer coisa, apenas dizer: "isso aconteceu". Algo de interessante mudou nessa releitura, eu percebi algo que não havia notado anteriormente: as personagens apresentadas são como a própria estrutura do livro, cheias de cortes. Tanto fisicamente quando psicologicamente. Elas são chegas de corte e falhas com grandes vãos em que os fazem agir de forma desesperada para preencherem esses vazios. E de novo, como podemos julgar isso?

Não sei se é um livro que agradaria qualquer pessoa que o pegar para ler, mas acredito que todo livro que traz tantas reflexões a ponto de te deixar sem chegar numa conclusão é um livro bom. É um livro fora do comum em muitos sentidos e tenho certeza que se eu pegar para reler daqui a 4 anos novamente, eu vou chegar numa conclusão diferente e para mim, isso é incrível.
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Holocausto Brasileiro
fevereiro 21, 20200 Comments

Holocausto Brasileiro é um livro que venho querendo ler desde 2017, um ano depois de começar minha graduação em psicologia e ter uma noção mínima (bem mínima) sobre a reforma psiquiátrica no Brasil. Apesar de não ser um livro dedicado a essa reforma, ele acaba fazendo uma caminhada sofrida nos acontecimentos do Hospital Colônia de Barbacena até o começo do caminho para essa reforma ser possível.

O livro-reportagem de Daniela Arbex traz ao público um histórico do Hospital Colônia de Barbacena, que abriga a história sangrenta de décadas de tratamentos desumanizados aos pacientes que ali foram internados. Ele foi fundado em 1903 em Barbacena - MG e recebia centenas de pessoas para serem tratadas, eram tantos internos que alguns anos depois esse número chegava a cerca de 5 mil pacientes em um local planejado para ter cerca de 200 leitos. Mas cerca de 70% desses pacientes não tinha diagnóstico de doença mental, essas pessoas eram homens e mulheres que de alguma forma haviam se tornado um incômodo para a sociedade: homossexuais, prostitutas, epiléticos, mães solteiras, mulheres engravidadas pelos patrões, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento, rebeldes, mendigos ou simplesmente pessoas tímidas.

Em Holocausto Brasileiro a autora dá voz aos personagens que presenciaram o que acontecida dentro do hospital que conseguem enfim contar sua história. É impressionante o quão fácil era alguém internar a outra no hospital, muitas vezes o paciente não sabia o motivo de estarem ali e se encontravam abandonadas pela própria família e abandonadas pelo Estado que assim como a família, devia protegê-los. A tirada da humanidade dessas pessoas é mais que óbvia ao levarmos em consideração a forma como viviam: sem lugar apropriado para dormir, sem roupas, sem comida adequada ou água para beberem — o que os forçavam a beber água do esgoto aberto que havia no pátio— com sessões de eletrochoque que muitas vezes era uma forma de castigá-los por comportamentos inadequados e apenas amontados em espaços abertos sem nada para fazerem, quase que esperando a própria morte. 


Não é nenhuma surpresa que décadas assim resultasse em mais de 60 mil mortes e cerca de 1800 desses cadáveres foram vendidos para faculdades do Brasil. O número de mortes dentro do hospital era tão grande que chegou um ponto que eles não conseguiam mais vender esses corpos, pois as faculdades já tinham o suficiente.

O livro de Arbex é o tipo de material que é necessário ter acesso para manter lembrado um fato triste da nossa história. Não podemos fingir que não aconteceu, fazer isso é ser desrespeitoso com todas as vítimas do hospital e não seria muito diferente da atitude de todos aqueles que despacharam para Barbacena todos aqueles que não se encaixavam no que era considerado "normal". Nós temos a grande tendência de querer tirar da nossa frente o que nos incomoda e com isso há um grande perigo pois não é preciso muito para voltarmos a barbárie. Aquelas pessoas eram submetidas a condições desumanas com o consentimentos do Estado, de todos os funcionários do hospital e da própria sociedade. E continuamos a fazer isso com diversas outras situações que acontecem atualmente. É preciso lembrar e continuar em constante fiscalização de nós mesmos para não repetirmos o passado.

Há também um documentário lançado em 2016 e apesar de ser baseado no livro de Arbex, o documentário traz relatos que pessoas que não apareceram no livro, dando a oportunidade de termos contato com outras perspectivas sobre o que ocorria ali, como por exemplo de pessoas que trabalhavam ali dentro e não achava nenhum terror o que acontecia por ali, ou um homem que quando menino passava por ali e via os loucos, sem entender o que exatamente era aquilo. É difícil não ser mergulhados em sentimentos que passam de tristeza a ódio, eu particularmente precisei parar em um determinado relato pela raiva que senti da pessoa que ali falava. Mas assim como o livro, acredito ser um material interessante para saber um pouco mais, mas a pesquisa mais afundo é o mais essencial de todas.


Autora: Daniela Arbex
Editora: Intrínseca
Ano: 2019
Páginas: 280
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Tá tudo bem deixar pra lá
fevereiro 18, 2020 2 Comments
créditos da imagem: syperdre
O ano de 2020 mal começou e já me enfiei numa enrascada.

Sabe quando você tá lá no seu canto, querendo que aquela coisa aconteça e de repente você vê uma oportunidade aparecer bem na sua cara? E você não acredita em como foi fácil isso acontecer e fica encantada pensando "meu deus, eu preciso me abrir mais para a vida pois a oportunidade estava aqui e eu nunca tinha notado!", pois é meu amor... corre! Lembra daquela expressão: o que vem fácil vai fácil? Então, a última coisa que quero fazer é romantizar o sofrimento mas se algo vem MUITO fácil, as chances de dar merda são muito maiores. Qual é, olha o mundo em que vivemos! A gente tá fadado ao sofrimento, mas eventualmente algo de bom sai disso.

De qualquer forma, digamos que algo aparentemente bom veio fácil e você decidiu agarrar a oportunidade mesmo assim (como eu fiz!), será que não tinha nenhum sinal de que algo não estava certo? Eu nunca acreditei nessas coisas, mas agora vejo que sim, esses sinais existem! Desde o começo dessa história toda eu não fiquei completamente confortável onde eu estava me enfiando, ainda que no fundo era algo que eu tinha certeza que queria, mas decidi ignorar esse sentimento  porque afinal poderia ser só um frio na barriga por ter saído da minha zona de conforto. Mas então nos primeiros 15 minutos você nota que a pessoa que está ali te dando a oportunidade não tem muito a ver com você e durante todo o tempo que está ali você já perdeu toda a animação mas no fim da noite você se convence de que são "ossos do ofício" e que infelizmente existem pessoas que você não vai concordar e que tá tudo bem.

Acho que o problema maior não foi agarrar a oportunidade, é algo bom aproveitá-la quando possível, o problema mesmo foi eu insistir no erro querendo resultados diferentes, ainda que vários outros sinais tenham aparecido para mim, inclusive minha amiga vir e literalmente dizer: CORRE QUE É CILADA! Eu sei que você tá lendo isso cara amiga, saiba que eu te amo e como já te disse, eu vou sempre escutar você a partir de agora! Uma pena ter explodido na minha cara para aprender, mas eu fico feliz de ter aprendido a minha lição.

Não vou me martirizar porque no momento eu pensei estar fazendo o melhor para mim mesma, sendo uma pessoa madura e que consegue separar o pessoal do profissional. Eu estava seguindo uma visão linda e que daria super certo se todos os envolvidos também estivessem mais ou menos no mesmo lugar. Mas essa situação me fez entender com mais propriedade a importância de se colocar em primeiro lugar, a gente volta e meia esquece que nós precisamos nos priorizar porque ninguém vai fazer isso por nós e há situações em que nós sabemos que não está nos fazendo muito bem mas continuamos a nos machucar para agradar aquele do nosso lado.

Isso não é o ideal. Sinta os sinais, não ignore quando eles estão literalmente sendo falados para nós e repense a situação. A vida já é cheia de coisa chata, quando menos nervoso a gente passar, melhor! Na dúvida, deixa pra lá. 
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Revisitando Harry Potter
fevereiro 07, 2020 2 Comments

Depois de quase 10 anos desde que tive meu primeiro contato, decidi reler a série mais importante da minha vida de leitora: Harry Potter.

A decisão veio pois no ano de 2019 eu perdi o meu hábito de leitura por conta de todos meus afazeres da faculdade e não suportei a ideia disso continuar assim pois ler (por diversão) é o que eu mais amo no mundo! Imaginei que relendo Harry Potter, talvez a série mais importante para a consolidação desse hábito, seria uma boa forma de voltar as leituras. Ainda não sei exatamente de funcionou, mas posso dizer com certeza o quanto que eu amei revisitar esse universo.

É doido pensar como esse universo está impregnado nesse 'eu' em que me tornei dentro de quase 22 anos. Harry Potter e a Pedra Filosofal foi o primeiro filme que vi no cinema, eu tinha em torno de 3 anos de idade e é uma das primeiras memórias que tenho como pessoa. Lembro-me de ter ficado com medo do trasgo e logo depois disso minha mãe saiu comigo do cinema. Anos depois foi nesse mesmo universo que eu aprendi a amar ainda mais a leitura e os livros também foram partes importantes da minha vida e que me ajudaram a me tornar quem eu sou. É bem difícil eu não sentir uma uma ligação importante com a série até hoje.

Harry Potter não iniciou minha vida como leitora. Sempre tive um incentivo a leitura vindo do meu pai e ele me levava sempre que podia na biblioteca municipal da nossa cidade para que eu pudesse pegar livros, na época lia muito Capitão Cueca e amava! Conforme os anos se passaram essas visitas foram diminuindo e o hábito acabou se perdendo também. Isso começou a mudar lentamente depois que uma conhecida do meu pai me colocou para ler um dos livros da coleção Para Gostar de Ler e parece que funcionou, não é mesmo? Não tenho tantas lembranças dessa época mas após isso fui querendo ler o que podia e fui construindo esse hábito, também tive o incentivo de uma professora minha que sempre separava um dia de aula apenas para as leituras e foi por causa dela que acabei lendo a série Crepúsculo que estava bombando e eu amava os filmes.

Foi mais ou menos nessa mesma época que o sexto filme de Harry Potter saiu nos cinemas e apesar de eu ter ido ver Cálice de Fogo e Ordem da Fênix quando lançados, foi com Enigma do Príncipe  que eu fiquei quase que no desespero de ler toda a série antes de sair os últimos dois filmes. Lembro-me que fiquei muito intrigada com os acontecimentos do sexto ano e senti que perdi muitas coisas por não ter as informações que muito provavelmente estariam nos livros e foi a partir disso que mergulhei de cabeça no universo do menino Potter.


Uma das memórias que eu mais gosto nesse processo de redescobrir o universo com outra fonte foi a de eu entender que Harry era uma horcrux antes mesmo que acabar de ler a série, óbvio que eu entendi isso por cima mas me questionei antes de ler todos livros se alguma parte de Voldemort  tinha ido parar dentro de Harry depois de matar os Potter. Honestamente não sei dizer se isso é algo bem claro ou não, mas me dá um certo orgulho ter sacado isso sem muitas informações.

Com Harry Potter tive minha primeira ideia de como essa conversa com o cinema e livros pode acontecer. Claro que na época eu também acompanhava a série Crepúsculo mas eu não parava para pensar muito sobre as adaptações em comparação com os livros, ainda mais porque depois de Lua Nova eu perdi o interesse nos filmes. Como eu entrei na série de Harry com o objetivo de entender tudo o que estava acontecendo, eu acabava fazendo muitas comparações com as adaptações dos livros e via o que faltava ou não, sempre tentando ligar as coisas e notando depois com os últimos filmes, que ao meu ver foram feitos muito mais para quem já havia lido os livros e não para aqueles que só acompanhou pelos filmes, eu percebi a importância de se manter uma adaptação e que tá tudo bem haver mudanças e não ter cada detalhe apresentado no livro.

Revisitar esse universo com uma visão totalmente diferente da experiência anterior, agora como uma jovem adulta, me fez sentir e pensar muitas coisas que antes eu não poderia ter notado. Eu fiquei impressionada em como as personagens são complexas e possuem uma incrível profundidade. Apesar de ser um universo fantasioso, todos carregam muita humanidade dentro de si e nos mostram suas nuances que são tão comuns em nós seres humanos. Toda dor, raiva, medo, paixão e amor são transmitidas de forma que fica quase impossível não se identificar e também simpatizar.


Eu nunca havia notado antes em como é triste a história de Harry e de que como ele só conseguiu suportar todos esses anos de perdas e sofrimentos por conta de sua rede de apoio que construiu em sua segunda cada, Hogwarts. Acho que sempre ficou muito claro para todos que conhece a história que a maior arma que nos é apresentada é o amor e assim como o Voldemort e até o próprio Harry questiona em certos pontos da história, ao parar para pensar nos parece bem utópico essa visão. Afinal, o que é o amor? Isso é tão relativo, para começo de conversa. Mas o ensinamento vai muito além disso.

Acho que não tinha entendido completamente até vir aqui escrever esse texto mas agora me parece bem claro que é sobre essa rede de apoio que a história traz como uma arma. Uma rede que é criada de forma orgânica, diferente dos seguidores de Voldemort que o seguia basicamente pelo medo. É claro que uma rede baseada nisso não é forte e é por isso que o vilão sofre para ter sucesso. Harry possui uma rede de apoio gigantesca que acontece de forma natural e sem ela, dificilmente ele teria conseguido vencer até o fim. É como Luna diz para ele em um momento onde ele se encontra isolado, ela afirma que sozinho ele não parece uma ameaça tão grande, em comparação de quando se está rodeado de pessoas.

Acho que no fim, é isso que mais importa e precisamos lembrar no fim do dia: nós precisamos da nossa rede de apoio. Todos nós precisamos e é preciso permanecermos juntos para continuarmos vencendo nossas batalhas.


Autora: J.K. Rowling
Tradução: Lia Wyler
Editora: Rocco
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@linelanis