Junho 2017 - Barricada de Livros

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Precisamos Falar Sobre o Kevin
junho 28, 2017 14 Comments

Já repararam que quando algo ruim acontece nós começamos a relembrar de tudo, na esperança de achar uma linha solta, algo que nos indique que foi ali, naquele momento em que tudo começou a ir ladeira abaixo? Não sei se isso acontece com todos, só sei que acontece comigo. E é exatamente isso que a nossa narradora faz.

Nossa narradora é Eva Khatchadourian, uma mulher bem sucedida que conseguiu ser independente através de um "trauma". Sua mãe não sai de casa de jeito algum, sente medo de tudo que há lá fora. Crescendo numa casa assim, Eva sente uma necessidade enorme de sair de sua zona de conforto e foi viajando que criou sua empresa "A Wing & a Prayer" um guia turístico. Por conta disso, Eva viaja muito a trabalho pois ela não confia essa verificação com mais ninguém a não ser ela mesma.

Ela é casada com Franklin, e querendo ou não ela é bem mais sucedida do que ele em questões de carreira e trabalho. O que o incomoda, ao menos foi o que eu mais percebi durante a minha leitura. O livro é composto completamente por cartas de Eva ao seu antigo marido. Logo descobrimos que eles não estão mais juntos e essas cartas são o modo que Eva achou de falar com alguém e ao mesmo tempo relembrar fatos de sua vida de casada, tendo a chance de lhe contar o seu lado da história.

O fato é que seu primogênito, Kevin, planejou e executou um massacre em sua escola em uma quinta feira. Ela intercala os acontecimentos presentes como seu dia a dia, seu novo trabalho e as visitas a penitenciária em que Kevin vive, com os acontecimentos passados que vai desde todo o processo de decisão de ter um filho até a bendita quinta feira.

Franklin, que é doido para ter um filho, levanta o questionamento da maternidade o que vem como uma pressão muito forte em cima de Eva, que não tem desejo de ser mãe. Ela até se questiona se há algo errado com ela já que com seus 35 anos ela ainda não tinha entrado nesse "cio maternal". Mas ela acaba cedendo e isso vem em grande parte pela culpa que ela sente em negar a única coisa que o marido mais quer. Ela tenta constantemente criar desculpas de que sim, ela queria ter esse filho. Mas a verdade é que ela nunca quis. E após ficar grávida, as coisas só pioram. Franklin era possessivo com o futuro filho, como se nada mais importasse além do bebê, nem mesmo a mulher que o carregava. 

O livro tem uma narrativa lenta, o que pode não ser agradável para todo mundo. Eu mesma sofri bastante lendo, não conseguia ler uma carta atrás da outra de jeito nenhum pois eu me sentia mal com todos os acontecimentos. Em vários momentos eu passei raiva e quis jogar o livro na parede ou na rua já que li boa parte dele no ônibus. Eu sinceramente não sei como Eva aturou tudo aquilo sem gritar ou assassinar alguém, assim como Kevin.

O marido dela, como já disse antes, era possessivo demais com o filho e acredita com todas as fibras do seu ser que o que Eva relata são mentiras, como se ela quisesse culpar o filho pelas suas falhas. Sem contar toda a questão que ele claramente não sabe como funciona um casamento saudável. Ele toma decisões sem ao menos contar para a mulher. Decide sozinho que eles precisam mudar para um subúrbio, praticamente força Eva a desistir de seu trabalho para cuidar do filho 24h por dia e ainda cria o filho como bem entende sem antes consultar a mãe.

Tipo assim querido, você não fez o bebê sozinho e ele não é só seu. Ela tem todo o direito de participar na forma como ele tá sendo educado tá bom? Sério gente, como ela consegue aturar isso? Deus me livre de um dia ficar na posição dela, porque eu com certeza surtaria facilmente.

Apesar de ter um tema perturbador no meio da história contada, o massacre escolar, a questão principal do livro é a maternidade e como isso pode ser negativo para uma mulher. O que é irônico pois as mulheres vivem em constante pressão para ser mães, mesmo que não queiram, e a maternidade é romantizada em tudo que nós vemos. O que esse livro faz é jogar toda essa romantização no lixo. A narração do trabalho de parto é torturante e foi a primeira vez que eu li essa dor real num livro. O mais próximo que eu cheguei da 'dor' antes foi em textos sobre o parto em que li para uma matéria da faculdade. Mas antes disso tudo que eu lia era como é algo lindo e prazeroso, não que não seja possível, mas acho que deu pra entender.

Me incomodou muito o fato de que quando Kevin mata seus colegas de escola, a culpa vai para cima de Eva e em nenhum momento é dito que a culpa foi também do pai (se é que existe culpa deles). É aquilo que vemos diariamente, a culpa é sempre da mãe. Não importa o que o pai tenha feito, a responsabilidade sempre cai em cima dos ombros da mãe. Eva se questiona muito se ela teve alguma culpa nisso tudo, ainda que ela acredite que Kevin nasceu mau.

É chocante todas as narrações da vida de Kevin com a mãe, desde o seu nascimento até a quinta feira. Desde o início, Kevin se mostra frio e não demostra nenhum interesse pela vida e nem afeto pelos pais. Isso fica bem claro para Eva, já que ele não tentava esconder isso dela. Já com o pai, ele fingia ter interesse pelo que lhe era apresentado. É ainda mais chocante, devido ao que nós somos levados a acreditar, quando descobrimos que Eva também não gosta do filho.

É um livro pesado, arrastado de uma forma boa e que eu acho que não agrada a todos que decidam ler. Mas se você resolver lê-lo, vá de mente aberta. Tente entender o lado dessa mãe que se sente tão culpada pelo comportamento do filho mesmo que no fim, a culpa não seja dela e de ninguém mais além de Kevin. E se preparem pro final, caso não tenham assistido ao filme.

Autora: Lionel Shriver
Tradução: Beth Vieira e Vera Ribeiro
Editora: Intrínseca
Ano: 2007
Páginas: 464
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@linelanis