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08 setembro 2017

Os Miseráveis, de Victor Hugo (#41)

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Título original: Les Miserábles
Autor: Victor Hugo
Editora: Cosac Naify
Ano: 2012
Páginas: 1974
Para saber mais: Skoob
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Sinopse: Considerado a obra-prima de Victor Hugo, este romance se desdobra em muitos: é uma história de injustiça e heroísmo, mas também uma ode ao amor e também um panorama político e social da Paris do século XIX. Pela história de Jean Valjean, que ficou anos preso por roubar um pão para alimentar sua família e que sai da prisão determinado a deixar para trás seu passado criminoso, conhecemos a fundo a capital francesa e seu povo, o verdadeiro protagonista. Na via crucis que é o romance sobre a vida de Valjean, são retraçadas as misérias cotidianas e os dias de glória do povo francês, que fez das ruas seu campo de batalha e das barricadas a única proteção possível contra a violência cometida pela lei.


Tomei vergonha na cara e finalmente vim falar de 'Os Miseráveis'.
E eu sumi legal do blog, já peço desculpas. Tive alguns problemas pessoais e fiquei beeeem desanimada com tudo e não fiz quase nada além de dormir, comer e ir pra faculdade. Mas, tô tentando ficar melhor e voltar a ativa!

Parte do sumiço se deve a minha fuga de vir escrever sobre o melhor livro que eu já li, isso porque quando eu faço um post para o blog é como se fosse aquele momento em que você pega o livro e guarda na sua prateleira. Acabou aquela leitura, vamos pra próxima. Acho que eu não queria deixar de lado meu francesinho, não fazer o post era uma forma de deixar a experiência ativa. Mas, uma hora eu precisava fazer isso não é mesmo?

Então vamos lá! 
Assim como meu post sobre o musical Les Mis (que você pode ler clicando aqui), esse post vai acabar sendo bem mais emotivo. Acontece gente, não tem como ser diferente! Eu idolatro e lambo o chão de onde Os Miseráveis passa. ¯\_(ツ)_/¯

Os Miseráveis foi publicado em 1862 não só em Paris como em outras cidades do mundo simultaneamente (incluindo Rio de Janeiro!). A história se passa na França no século 19 e antes de mais nada, NÃO SE PASSA NA REVOLUÇÃO FRANCESA! Não achem que gritei, é só pra deixar em destaque mesmo pois sempre tem alguém que acha isso, mas não. A Revolução Francesa aconteceu em 1789 e nossa história tem início em 1815, okay?

Bom, é bem difícil explicar todo o enredo do livro já que diferente do filme que é bem focado em Jean Valjean, o livro coloca seu foco em cada um dos principais personagens em determinado momento. Isso porque Victor Hugo pega todos esses personagens e conta suas histórias como se fosse uma teia, assim todos possuem uma certa ligação com os outros. 

Particularmente, eu acredito que Jean Valjean é sempre visto como o "mais principal" pois de certa forma, vendo a história de forma cronológica, tudo tem início com ele. Mas ainda assim é complicado, já que tudo tem um porque passado.... AAAAAH! Enfim, vamos pegar ele como ponto de partida e falar mais ou menos a história tratada aqui.

O livro conta as histórias de personagens a margem da sociedade como ex-presidiários, prostitutas, meninos de ruas e as pessoas miseráveis do séculos 19. Jean Valjean é o grande herói da história, pelo menos para mim, ele foi preso ainda novo por roubar pão para alimentar os filhos de sua irmã. Ele acaba passando 19 anos nas galés pois sua pena aumentava sempre que era pego tentando fugir. Ao ser solto, ele passa por diversas rejeições e não consegue trabalho e nem ao menos um lugar para dormir, tudo porque ele tem o título de ex-prisioneiro. Eis então que ele é acolhido pelo Bispo de Digne, é importante dizer que Jean Valjean não era realmente alguém perigoso ou mau, mas ele mudou e ficou endurecido por causa tudo que lhe aconteceu na vida e quando tem uma oportunidade, rouba as pratarias do Bispo. Mas ele é pego, ele tenta se safar dizendo que foi presente do Bispo e quando a polícia o leva até a casa do Bispo para lhe devolverem as pratarias, ele confirma a história de Jean Valjean.

E é ali, com esse gesto de compaixão que Jean Valjean muda completamente. 
Ele usa as pratarias para se tornar um homem novo e honesto e faz de tudo para viver de forma correta seguindo as leis de Deus, ajudando a todos que passam por sua vida. Ele até consegue solucionar um certo problema em uma cidade e constrói um império e emprega várias pessoas dali. Fantine é uma dessas pessoas. 

Fantine é uma jovem que é obrigada a deixar sua filhinha Cosette com a família Thénardier pois teme que não conseguirá emprego sendo uma mãe solteira. Ela paga essa família para que cuidem de sua filha mas nem imagina que aquelas pessoas não são lá flores que se cheirem. Eles tratam a garotinha como uma escrava e pega todo o dinheiro que Fantine manda. O que acaba sendo sendo frequente já que os Thénardier vivem dizendo que a pequena Cosette está doente e precisa de remédios caros. Tudo desmorona quando Fantine é despedida e para continuar mandando dinheiro ela vende tudo que tem e acaba na prostituição.

Numa noite Jean Valjean, que nessa época era conhecido como Senhor Madeleine, salva Fantine que já está muito doente, de Javert que pretende prendê-la. Javert é um inspetor que vive atrás de Jean Valjean desde que ele sumiu do mapa. A princípio Javert não reconhece o ex-prisioneiro mas acaba suspeitando mais adiante. De qualquer forma, Senhor Madeleine promete a Fantine que irá cuidar de sua filhinha. A partir daí, Valjean adotando Cosette, sua vida se resume a fugir das garras de Javert. Há então um salto no tempo que somos apresentados a outros personagens muito importantes como Marius e Gavroche. Não vou falar mais nada do enredo pois ficaria horas e horas escrevendo e no fim não falando nem metade do que acontece no livro. 

O livro é aberto com a citação mais linda que eu já li:
"Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século - a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância - não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis."
Lindo pois já podemos ter uma ideia de quão fantástico é a escrita de Victor Hugo e também linda pois logo no início do livro, antes mesmo da narrativa propriamente dita começar, o autor já nos diz o que vai ser tratado, discutido e denunciado em suas mais de mil páginas de história. E particularmente me assusta pois agora, 155 anos depois dessas palavras, nós continuamos enfrentando os mesmos problemas que Victor Hugo nos descreve. É assustador que depois de tanto tempo nós continuamos quase que no mesmo lugar. Me parece que todo o progresso não passa de ilusão.

Mas isso também faz parte da genialidade dessa obra, Victor Hugo sabia que seus personagens poderiam ser identificados independentemente do lugar ou época. Pois o mundo é cheio de Jean Valjens, Fantines, Cosettes, Marius, Eponines e Gavroches. Não é atoa que o sucesso de Os Miseráveis continua forte assim como foi na época.

Desde o começo da leitura eu pude perceber o quão gostosa seria a narrativa do autor, admito que fiquei com medo de não conseguir acompanhar o contexto histórico, ainda mais sabendo que eu sou extremamente perdida com história, mas Victor Hugo nos conta tudo explicadinho e fica difícil não gostar de ler Os Miseráveis. Mesmo suas digressões são bem delícia de ler, tirando uma ou outra que acaba sendo um pouco cansativa. O negócio é que o autor sabe vender seu pão. Tudo que ele descreve é verossímil, mesmo que não seja verdade.

Logo após minha leitura eu li também o livro A Tentação do Impossível de Mario Vargas Llosa e contrariando o que disse logo no início dessa postagem, essa segunda leitura me fez concordar com Mario e acredito fortemente que quem protagonista nossa história é o Narrador.
"Presença constante, arrebatadora, a cada passo ele interrompe o relato para opinar, às vezes em primeira pessoa e sob um nome que quer nos fazer acreditar é o próprio Victor Hugo, sempre em voz alta e cadenciada, para interpolar reflexões morais, associações históricas, poemas, lembranças íntimas, para criticar a sociedade e os homens em suas grandes intenções ou suas pequenas misérias, para condenar seus personagens ou elogiá-los."
Llosa também diz que apesar do Narrador tentar sempre nos fazer acreditar que ele o que ele nos narra é a mais pura verdade, ele não passa de um astuto fazedor de uma grandiosa mentira. E ainda diz que conforme a leitura avança, o leitor se submete a ditadura do Narrador. E olha, isso faz muito sentido. Quando comecei minha leitura eu questionava o que estava sendo descrito, ainda mais por ser perdida na história então queria saber além do que estava sendo contado, mas conforme fui avançando eu simplesmente comecei a aceitar os fatos narrados sem me preocupar se eram fatores reais ou ficção. Não importava pois era real para mim e para a história.
Em suma, a história de Os Miseráveis tende a ser religiosa. 
Tende não, ela realmente é religiosa. 

Mas apesar de toda a falsidade que o Narrador cria, ele consegue deixar sua história muito perto da realidade. Não sei vocês mas um romance me encanta quando nele há coisas mundanas e comuns no meio de toda a trama. Eu simplesmente não consigo engolir uma história em que acontecimentos gigantescos acontecem a todo o momento. A vida é tédio também. Espera, dramas, tristezas, felicidades momentâneas e tédio novamente. O Narrador deixa seus personagens viverem suas vidinhas mas os levam até suas ratoeiras, um local e situação em que todos seus personagens mais importantes se encontram para resolver alguma coisa.

Se você for ler Os Miseráveis, é importante levar em consideração a época em que ele foi escrito e seu estilo. Acredito que qualquer um pode se apaixonar por essa história, se ler de coração aberto. Há coincidências, os personagens são exagerados conforme suas maiores características e há as grandes interrupções do Narrador. Mas com calma você passa por todas as suas páginas e chora de tristeza por ter acabado (eu chorei horrores). Não tenha medo desse clássico tijolinho, vale a pena!

Ah, e leia A Tentação do Impossível também, vai abrir seus olhos para coisas que você nem ao menos pensou ao ler Os Miseráveis. ^-^

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