27 de março de 2018

Me Chame Pelo Seu Nome, de André Aciman (#48)

Título original: Call me by your name
Autor: André Aciman
Editora: Intrínseca
Ano: 2018 
Páginas: 288
Para saber mais: Skoob
Sinopse: A casa onde Elio passa os verões é um verdadeiro paraíso na costa italiana, parada certa de amigos, vizinhos, artistas e intelectuais de todos os lugares. Filho de um importante professor universitário, o jovem está bastante acostumado à rotina de, a cada verão, hospedar por seis semanas na villa da família um novo escritor que, em troca da boa acolhida, ajuda seu pai com correspondências e papeladas. Uma cobiçada residência literária que já atraiu muitos nomes, mas nenhum deles como Oliver. Elio imediatamente, e sem perceber, se encanta pelo americano de vinte e quatro anos, espontâneo e atraente, que aproveita a temporada para trabalhar em seu manuscrito sobre Heráclito e, sobretudo, desfrutar do verão mediterrâneo. Da antipatia impaciente que parece atravessar o convívio inicial dos dois surge uma paixão que só aumenta à medida que o instável e desconhecido terreno que os separa vai sendo vencido. Uma experiência inesquecível, que os marcará para o resto da vida.


Eu não costumo ser o tipo de pessoa que segue os hypes, independentemente do que sejam: filmes, séries, livros etc. Eu sou uma pessoa do meu próprio mundo e nunca me forço a fazer nada só porque várias pessoas me falam para fazer, assim como eu não deixo opiniões alheias definirem se eu vou ou não fazer alguma coisa. É por isso que eu bato tanto na tecla de que é preciso ter sua própria experiência para falar de algo, independente do que seja. 

Não sei explicar muito bem o motivo que me fez querer ler o livro Me Chame Pelo Seu Nome no meio do hype que ele está tendo graças a sua adaptação para o cinema que conseguiu 4 indicações ao Oscar (e ganhou a estatueta de melhor roteiro adaptado!), eu nem ao menos tinha me interessado pela história mas isso porque a primeira vez que fiquei sabendo dele me passaram informações precipitadas e eu achei perturbador e não quis ter contato (falo mais disso depois no post sobre o filme). Mas ao saber realmente sobre o que era eu logo fiquei curiosa. Então vou aproveitar pra bater mais uma vez na tecla: pesquisem antes de sair julgando! Eu fiz isso e fiquei triste de não ter me interessado antes.

O livro se passa em algum lugar na Itália e nosso narrador é um Élio mais velho nos contando sobre um verão lá pros anos 80 que foi marcante em sua vida. Notamos desde o início como ele tem um afeto muito grande por aqueles meses e toda sua narrativa é contada nos passando essa sensação de nostalgia. Seu verão foi marcado por uma paixão arrebatadora que ele sente por Oliver, um jovem escritor norte-americano que está ali para acompanhar o processo de tradução do seu livro sobre Heráclito e vai se hospedar em sua casa. Isso porque o pai de Élio é um acadêmico e todo verão cede sua casa para hospedar alguma outro estudioso que tenha interesse em passar as férias naquele pequeno paraíso, isso tudo de graça e a única exigência é que o hóspede dedique uma hora para ajudar o pai de Élio com as correspondências e papelada em geral.

Élio começa seu verão já de saco cheio e nada animado em ter que ceder seu quarto para mais um chato que vai ficar ali por seis longas semanas. Mas logo percebemos que o que acontece é aquela clássica jogada da nossa cabeça em que nós fingimos odiar aquela pessoa que nos atrai. Élio fica obcecado por Oliver logo de cara, isso é óbvio para nós, mas ele passa as primeira páginas tentando entender onde foi que essa paixão teve início.
"Mas talvez tenha começado bem mais tarde do que acredito, sem que eu percebesse. Você vê a pessoa mas não a enxerga de verdade, ela simplesmente está por ali. Ou até enxerga, mas nada bate, nada 'chama a atenção' e, antes mesmo que você perceba uma presença ou algo incômodo, as seis semanas que lhe foram oferecidas já passaram e a pessoa já foi embora ou está prestes a ir, e você fica lutando para aceitar algo que, sem que você soubesse, vinha ganhando forma bem debaixo do seu nariz, trazendo consigo todos os sintomas daquilo que só pode ser chamado de desejo. Como eu não percebi? Você se pergunta. Sei reconhecer o desejo ー desta vez, no entanto, tinha passado completamente despercebido. Eu me saía com meu sorriso misterioso, que fazia o rosto dele se iluminar toda vez que lia meus pensamentos, mas tudo que eu queria era pele, apenas pele." (pág. 15)
Élio vê Oliver e sua atração por ele é gigantesca e sua vontade de o ter para si é tão grande que beira a obsessão. O que pode até parecer assustador falando assim, mas se nós refletirmos um pouco é exatamente o que acontece quando nós nos apaixonamos por alguém. Você quer saber cada pequeno detalhe físico e psicológico do outro, quer saber cada passo e até queremos nos tornar aquela pessoa de tão incrível que ela nos parece. É isso que o livro nos passa em cada página, parágrafo e palavra. É como se estivéssemos escutando um amigo nos falar sobre aquela pessoa que ele está afim e mesmo que nós mesmos não conseguimos enxergar o que ela tem de tão especial, nosso amigo se empolga e os olhos brilham só de pensar naquela pessoa em que ele tanto gosta.

Inclusive, acho legal falar que eu estou nessa posição nesse momento. Toda vez que vou falar sobre esse livro com alguém eu fico extremamente feliz e arrepio quando leio alguma passagem que eu marquei. E embora muitos amigos não entendam o porque de eu ter gostado tanto, pra mim esse é um dos melhores livros que eu já li em toda a minha vida de leitora e eu não consigo imaginar minha vida sem essa história e nem ao menos queria que ela acabasse. Se esse sentimento já é forte com um história, imagina o quão forte é esse sentimento para o Élio? A diferença é que ele consegue colocar em palavras de forma bem melhor que eu.
"Mas eu não enganava a mim mesmo. Estava convencido de que ninguém no mundo o desejava de modo tão primitivo quanto eu; de que ninguém estava disposto a ir até onde eu iria por ele. Ninguém tinha estudado cada osso do seu corpo, tornozelos, joelhos, pulsos, dedos das mãos e dos pés, ninguém desejava cada contração muscular, ninguém o levava para cama todas as noites e, ao vê-lo de manhã deitado em seu paraíso à beira da piscina, sorria para ele, via o sorriso vir a seus lábios e pensava. Sabia que eu gozei na sua boca ontem a noite?" (pág. 50)
Todo o objetivo da história de Me Chame Pelo Seu Nome, reforçada pelo presente trabalho de Oliver, é a mensagem que Heráclito passava de que tudo flui e nada permanece o mesmo. É uma história de primeira paixão, aquele sentimento arrebatador e que, infelizmente, tem seu fim. Afinal, tudo acaba. E como Heráclito também diz, nós nunca vamos entrar no mesmo rio duas vezes. E com isso eu quero compartilhar uma reflexão e uma visão pessoal que condiz com o discurso tocante do pai de Élio no fim do livro: Pra mim, não existe apenas uma primeira paixão. Somos cheios de primeiras vezes e eu acredito que seja um desperdício encaixar apenas uma situação como a primeira. Um exemplo que eu gosto muito de falar para as pessoas é sobre meus primeiros beijos. Eu adoro pensar em todo o primeiro beijo com pessoas diferentes como o meu primeiro beijo "oficial", eles são especiais de formas diferentes e eu guardo cada um deles com o mesmo carinho.

Como Heráclito disse, eu não estou banhando no mesmo rio. Cada beijo, com cada pessoa diferente é um novo rio. Com a visão de desapego que temos na nossa sociedade hoje em dia, ser uma pessoa que sofre a cada pequeno rompimento é taxada como "trouxa" e eu sou uma delas com todo orgulho. Cada pequeno rompimento me machuca pois mesmo que breve, toda relação que eu tenho é importante. E como o pai de Élio aconselha a ele, é um desperdício arrancarmos tanto de nós e ter cada vez menos para oferecer a cada vez que iniciamos algo com alguém novo.

O livro me encantou logo no começo pela escrita de André Aciman que é tão poética, crua, sensual e verdadeira que literalmente me fez arrepiar. Mas ele me ganhou completamente por sintetizar tudo aquilo que eu acredito e que eu nunca fui capaz de explicar totalmente. A narrativa se localiza  inteiramente na cabeça conturbada e confusa de Élio, assim como a nossa quando estamos gostando de alguém e isso é incrível pois depois de anos lendo pensamentos muito bem organizados eu já estava ficando angustiada pois aqui dentro, na minha mente, é uma baita confusão. E é tão bom se identificar 100% com o personagem que você está acompanhando!


É legal comentar que ambos os personagens são bissexuais, o que foi apontado pela Tatiany Leite do canal Vá ler um Livro e que eu mesma não tinha percebido, o que me trouxe toda uma reflexão sobre a invisibilidade de bissexuais na sociedade. Eles são sempre esquecidos e são difíceis de serem levados a sério, as vezes até mesmo da própria comunidade, e isso se mostrou tão forte ao ser apontado para mim pois eu, que sou, não notei isso. É um tanto quanto preocupante, mas quando notei que isso estava sendo representado nesse livro tão magnífico eu me apaixonei ainda mais.

Só pra concluir, peço que se você se interessou pelo livro leia. Veja o filme também! Não importa a ordem, só vá conhecer essa história linda de amor entre duas pessoas. É um desperdício essa história  sobre o amor continuar escondida aqui no Brasil como ficou por tantos anos. Uma história de amor pura e sem complicações desnecessárias como nós somos levados a acreditar que precisa ter para ser verdadeiro. E mesmo que tenha eventuais complicações, nunca impeça que elas sejam obstáculos para sua própria história de amor. Como o próprio Élio nos diz em uma passagem: "...após todas aquelas semanas e todas as discussões e todos os conflitos que sempre me causavam arrepio, tudo que havíamos nos tornado eram duas línguas movendo-se na boca um do outro. Apenas duas línguas, o restante era conversa."

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