Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (#54) - Barricada de Livros

Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (#54)

Publicado em 23 abril 2019


E se nós fôssemos todos cegos?
É a partir dessa ideia que Saramago escreve sua história.

Num dia comum, um cidadão espera o semáforo abrir para que possa continuar seu trajeto e eis então que ele cega, de um momento para o outro, sem nenhuma explicação. Carros começaram a buzinar e há uma grande comoção com as pessoas curiosas que vão acudir o novo cego. Mas há ainda outro fator estranho, se é que é possível ser mais estranho. A cegueira daquele homem não é aquela cegueira comum que conhecemos, ela é branca, como se aquele homem estivesse mergulhado em um mar de leite.

A partir disso uma série de eventos vão sendo narrados e vemos outras pessoas cegando, uma delas o oftalmologista que atendeu aquele primeiro cego e que ficou sem entender de onde essa cegueira tinha vindo já que não havia nenhum dano orgânico que explicasse tal coisa. Com isso temos a impressão de que essa cegueira, por algum motivo, é contagiosa. Assustados, o governo então decide colocar esses cegos, assim como aqueles que tiveram contato com eles, em um sanatório abandonado em uma espécie de quarentena até que eles tenham conhecimento da tal cegueira.

Mas o que parecia uma boa ideia no início, vai se tornando um verdadeiro inferno. Porque afinal, algo de bom poderia sair ao colocar em um local fechado e desconhecido várias pessoas que não conhecem umas as outras e que estão no desespero de estarem cegas e não saberem viver com aquilo? Sem contar que o desespero não são apenas deles, mas de todo mundo do lado de fora também como podemos ver com os soldados que ficam guardando o local. O medo de cegarem também os fazem agir de forma desumana.

"...mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos demanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos."

O que Saramago aborda em seu livro é como nós seres humanos que aparentemente somos tão inteligentes, não usamos essa capacidade de pensar para o bem. É preciso só uma pequena brecha para que nós nos mostremos como realmente somos. Animais. Animais sádicos que não ligam realmente com o próximo. Como ele abordou em uma entrevista, a nossa própria história nos mostra como só fazemos o mal. Guerras e guerras e conflitos em toda parte do mundo, ainda hoje encontramos isso. Parece que não temos um momento de paz nesse tempo em que estamos vivendo em sociedade.

"O medo cega, disse a rapariga de óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos."

Mas não é só isso que notamos em "Ensaio Sobre a Cegueira", a história é uma analogia sobre como nós não enxergamos aquilo que está bem na nossa cara. Quem sabe essa cegueira não foi uma tipo de teste necessário para que naquela realidade as pessoas conseguissem finalmente abrir os olhos? Mas é interessante pensar nisso quando há uma única pessoa no meio daquele caos que não cegou, o que inclusive refuta a teoria da cegueira ser contagiosa.

Essa mulher é a esposa do oftalmologista que decide se fingir de cega no momento em que seu marido é levado para a quarentena, para que assim pudesse lhe fazer companhia. Ninguém além do marido sabe que ela enxerga mas sua vida não é mais fácil por ter visão, justamente por ainda ver ela é obrigada a presenciar os horrores que acontecem ali, desde violência até a regressão do homem a selvageria. 

"Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem."
Penso que a mulher do médico é a representação de que não se torna mais fácil ter esses olhos abertos, enxergar o que está em nossa frente. É difícil, é extremamente difícil manter a fé de que há outras alternativas quando você tem plena consciência de como as coisas funcionam, fora da ilusão que somos mergulhados desde pequenos. Ver a verdade dói, é por isso que somos cegos e por isso que permanecemos cegos.

"Ensaio Sobre a Cegueira" não é um livro fácil, demorei para ler e demorei mais ainda para finalizar esse texto. Ele é angustiante, doloroso e nos mostra que no fim somos apenas animais assustados.


Título original: Ensaio Sobre a Cegueira
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Tradução: --
Páginas: 312
Para saber mais: Skoob
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