Flores


Li esse livro pela primeira vez em 2016 e desde daquela vez, é um livro que me intriga. Não sei bem o que entendi na primeira leitura e ainda não tenho certeza do que entendi nessa releitura. Desde a estrutura do livro físico — apenas o miolo e sem capa — até a estrutura da narrativa que logo na abertura do livro o autor deixa claro que a intenção é de cada capítulo possa ser lido separadamente mas que juntos compõem um todo, nós já sabemos que é uma história podada.

Tenho até certa dificuldade de falar sobre esse livro pois ele te fisga de um jeito impactante e te deixa sem entender muita coisa, mas ao mesmo tempo te faz questionar. A cada fim de relato eu tinha que fechar o livro e pensar. E pensei muito. Esse livro me pediu vários momentos de reflexão olhando para o além. Além das pessoas, além das ruas que passava e além de tudo que eu tava passando no momento.

Flores é uma coletânea de pequenos textos aparentemente independentes mas que no fundo são apenas fragmentos de uma história maior. O que sabemos é que um medicamento trouxe consequências em recém-nascidos de mulheres que fizeram uso da substância, fazendo-os nascerem com más-formações e os relatos envolve as pessoas que de alguma forma estão ligadas por conta desse acontecimento. O fato da estrutura ser feita dessa forma me fez pensar um pouco sobre a vida em si. Afinal, não somos todos pequenos fragmentos de uma história maior da humanidade? Se eu tivesse que definir esse livro em uma frase, ela seria: menos é mais. Essa é uma frase que eu escutava muito nos tempos de teatro pelo meu professor e eu acho absurdo como ela se aplica a várias coisas da vida. Ao não dar detalhes demais sobre alguma coisa ela se torna mais real e mais aberta a possibilidades. 

Conhecemos bem pouco dos personagens apresentados, mas o que conhecemos já é forte o suficiente. É um livro que incomoda bastante. E, apesar de toda a bizarrice conseguimos perceber a solidão das narrativas e talvez seja por isso que eu não consegui em momento algum julgar aquelas pessoas fictícias porém super reais para mim. E isso me torturou de certa forma. Estamos a todo momento julgando. Todo mundo julga. Claro, temos o exercício diário de tentar não fazer isso (pelo menos eu tenho), mas é uma coisa comum. E ao ler um livro, eu julgo bastante os personagens. Pois normalmente tenho disponível para mim tudo sobre as personagens o que dá uma certa "razão" de julgar cada decisão tomada. Mas nesse caso eu não tenho disponível praticamente nada. O que me levou a mais uma reflexão interessante.

Qual nosso fundamento real para julgar uma pessoa? Nós sempre esquecemos que nós apenas sabemos o que a pessoa nos apresenta e tenha certeza de uma coisa: não chega nem a metade do que a pessoa é. Ora, não temos capacidade nem de conhecermos a nós mesmos como podemos achar que podemos conhecer completamente o outro a ponto de julgá-lo?

A narrativa de Flores é crua e direta, ela apenas apresenta os fatos sem nenhum rodeio, o autor não tem a intenção de explicar qualquer coisa, apenas dizer: "isso aconteceu". Algo de interessante mudou nessa releitura, eu percebi algo que não havia notado anteriormente: as personagens apresentadas são como a própria estrutura do livro, cheias de cortes. Tanto fisicamente quando psicologicamente. Elas são chegas de corte e falhas com grandes vãos em que os fazem agir de forma desesperada para preencherem esses vazios. E de novo, como podemos julgar isso?

Não sei se é um livro que agradaria qualquer pessoa que o pegar para ler, mas acredito que todo livro que traz tantas reflexões a ponto de te deixar sem chegar numa conclusão é um livro bom. É um livro fora do comum em muitos sentidos e tenho certeza que se eu pegar para reler daqui a 4 anos novamente, eu vou chegar numa conclusão diferente e para mim, isso é incrível.

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